sexta-feira, 6 de junho de 2008

As indústrias de conteúdos digitais na América Latina

Cosette Castro - Observatório da Imprensa

A chegada da TV digital em diferentes países latino-americanos, como México e Brasil (2006) e Uruguai (2007), os estudos sobre rádio digital, os conteúdos para celulares, para internet ou o cinema digital são temas que vêm gerando um grande número de artigos (jornalísticos e acadêmicos), pesquisas, dissertações e teses nos países da região. E é sobre isso que este artigo trata: apresenta a pesquisa “As Indústrias de Conteúdos na América Latina”, inédita na América Latina, desenvolvida em 2007 no marco da Sociedade da Informação cujos resultados já estão disponíveis na web. A proposta foi conhecer a realidade da infra-estrutura tecnológica de 11 países da região quanto ao uso das mídias digitais, assim como os preparativos desses governos para desenvolver as indústrias de conteúdos em cada local.

Um estudo desta abrangência se justifica. As chamadas indústrias de conteúdo vão mais além do que representar a identidade cultural dos seus povos e a possibilidade de gerar bens simbólicos que movem sentimentos, comportamentos e novos hábitos nas pessoas através dos produtos culturais que geram. As indústrias de conteúdo digitais e a convergência entre as diferentes mídias podem ser um importante fator no desenvolvimento sustentável e na geração de políticas públicas que colaborem para a inclusão social e digital dos países latino-americanos.

Trata-se de um mercado que move cifras situadas na casa dos bilhões de dólares, dinheiro que pode fazer diferença na qualidade de vida de uma nação. Exemplo disso são os dados apresentados pela Unesco informando que em 2004 – ou seja, há quatro anos – o peso econômico das chamadas indústrias culturais e criativas no mundo era de 1,3 bilhões de dólares anuais. No entanto, a América Latina representava apenas 30% do total de bens culturais, já que o maior aporte de produção de conteúdos vinha do Reino Unido, dos Estados Unidos e da China.

No decorrer do trabalho diferenciamos as indústrias criativas (que incluem museus, design e/ou artesanato etc.) e as já conhecidas indústrias culturais da nova indústria de produção de conteúdos que vem sendo gestada em diferentes partes do mundo, inclusive o Brasil, ainda que de forma incipiente. Consideramos indústrias de conteúdos digitais aquelas indústrias (culturais, de entretenimento ou digitais) que se utilizam das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) e da convergência tecnológica para seduzir seus públicos; mas, à diferença de décadas anteriores, hoje as pessoas têm a possibilidade de produzir conteúdos e gerar informações, independente da existência de uma empresa de comunicação. Ou seja, podem deixar de atuar apenas como receptores dos bens culturais ofertados na sociedade para terem a oportunidade de – também – produzirem conteúdos.

Independente do nome dado a essa indústria – de conteúdos, criativas ou culturais – o certo é que países como Estados Unidos há muito descobriram as vantagens de aplicar no setor cultural. A participação do setor audiovisual no PIB daquele país é de 6% e se trata de uma indústria que garante empregos diretos para 1,5 milhões de pessoas. Além disso, exporta suas produções televisivas e cinematográficas para praticamente todos os países do mundo. Hollywood detêm 85% do mercado cinematográfico global e 77% das produções televisivas apresentadas no continente latino-americano vêm dos Estados Unidos.

O relatório sobre Indústrias de Conteúdo na América Latina baseia-se também em outros estudos recentes, como o da consultoria norte-americana PriceWaterhouse Coopers ou o DigiWorld América Latina 2007, que reforçaram a importância e urgência da pesquisa na região. Em 2007, a PriceWaterhouse Coopers apontava a América Latina como uma das regiões mais rentáveis para o recebimento de bens e serviços multimeios. As projeções da consultoria indicam uma expansão de 6,3% nas receitas de informação e entretenimento no período 2004-2008. Já o DigiWorld América Latina 2007 analisou o desenvolvimento digital (telecomunicações, desenvolvimento da informação, eletrônica de consumo e serviços audiovisuales) da região e as principais economias que a integram. Segundo aquele relatório, o mercado continuava em crescimento e em 2005, os latino-americanos representavam uns 7% do mercado digital, um espaço dominado atualmente por Europa e pelos Estados Unidos, com 71% do total. Ou seja, há um amplo mercado para a produção de conteúdos na região a espera de oportunidades para serem desenvolvidos, sejam eles no setor de e-governo, e-saúde, educação ‘a distância, e-trabalho, e-justiça ou entretenimento, entre outros.

Países e áreas de estudo

Na pesquisa realizada para CEPAL estudamos Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, México, Uruguai e Venezuela. Esses países foram escolhidos por apresentarem diferentes níveis de desenvolvimento no campo das TICs, diferentes níveis de implantação da TV digital, assim como de produção de conteúdos para as mídias digitais e de inclusão social. Metodologicamente, a eleição dos 11 países foi definida a partir do desenvolvimento das indústrias culturais e das indústrias de conteúdos, como pode ser observado a seguir:

Estados com expressivo desenvolvimento das indústrias culturais e com implantação das indústrias de conteúdo; com o sistema de TV digital e projetos de TICs já definidos, como Brasil e México ;
Estados com expressivo desenvolvimento das indústrias culturais e projetos de TICs já definidos, mas sem definição do sistema de TV digital, como Argentina, Colômbia, Chile e Venezuela;
Estados com baixa expressão em termos de indústrias culturais, com políticas de utilização das TICs, mas sem definição do sistema de TV digital, como Bolívia, Equador, Paraguai e Peru.
Também delimitamos as áreas de estudo que compõem as indústrias de conteúdo para acompanhar a realidade e o nível de desenvolvimento em cada um dos países:

indústria editorial
indústria de cinema
indústria da televisão
indústria do radio
indústria discográfica
indústria de conteúdos para celulares
produção musical independente [a criação musical não foi incluída porque tanto a indústria discográfica quanto a produção musical independente incluem a criação musical]
produção de conteúdos para Web
indústria de jogos eletrônicos
conteúdos produzidos para a convergência digital (cross media) [para chegar a esse detalhamento foram usados diversos instrumentos de pesquisa, entre eles entrevistas e questionários qualitativos aplicados em empresas de produção de conteúdos, instituições governamentais e universidades. Também serviram de subsídios documentos oficiais, notícias (impressas ou virtuais), páginas Web, relatórios e livros].
A partir dessas informações, apresentamos um panorama da situação dos países estudados que, cremos podem representar a situação da região como um todo, assim como apontar tendências no que se refere a:

o nível de desenvolvimento das indústrias culturais nos países pesquisados;
o nível de concentração vertical e horizontal das empresas ou grupos de comunicação nos países estudados;
a área de atuação e o tamanho dessas indústrias;
a preparação das empresas comerciais, produtoras independentes ou instituições para o mundo digital;
a preparação das empresas de telefonia fixa ou de celulares para a produção de conteúdos para celulares e para a convergência tecnológica;
as estratégias dos governos no que diz respeito a investimentos e apoio ‘as indústrias de conteúdo e produção independente.
Categorias para conhecer (e então entender) a realidade da região

Embora não se trate de um estudo conclusivo, as questões acima foram desdobradas em 19 categorias para possibilitar um olhar abrangente sobre os temas analisados. Esse conjunto de dados e informações, inédito nas pesquisas do gênero, permitiram conhecer as indústrias culturais que existem atualmente nos 11 países, assim como as indústrias de conteúdos em formação, suas debilidades e fortalezas. As 19 categorias analisadas são:

âmbito de atuação (empresas tem âmbito nacional, regional ou local?);
amplitude geográfica (empresas de comunicação ou telecomunicações de cada país estudado estão centralizadas na capital federal ou estão distribuídas por todo país?);
amplitude (o país possui empresas ou grupos que atuem fora das fronteiras nacionais?)
exportação de conteúdos (os países estudados exportam algum tipo de conteúdo?)
indústria do cinema, discográfica e editorial (problemas comuns dessas indústrias na região)
jogos eletrônicos (os países estudados desenvolvem essa indústria?)
infra-estrutura de televisão (que tipo de conteúdos analógicos são desenvolvidos?)
TV por assinatura (índices de utilização da TV por assinatura, assim como percentuais de conexões ilegais)
TV digital (quais as decisões de cada país?)
rádio (qual a estrutura de rádio analógico de cada país?)
rádio digital (fase de estudos de cada país)
infra-estrutura de telefonia fixa (percentual da população que possui telefone em casa)
infra-estrutura para celulares (uso de aparelhos pré-pagos e pós pagos)
infra-estrutura de internet (índices de acesso da população a internet e possibilidades de inclusão digital)
produção independente (qual apoio e desenvolvimento em cada país?)
legislação (diferenças entre as legislações?)
línguas usadas em cada país
propriedade intelectual e gestão de direitos do autor (situação de cada país?)
convergência tecnológica (avanço nos países estudados)
Essas categorias foram fundamentais para a definição de indicadores e para a nomenclatura utilizada na elaboração do Observatório Latino-Americano sobre Indústrias de Conteúdos (OLICON). A proposta do Observatório – que aparece detalhada na segunda parte do relatório sobre as indústrias de conteúdos na América Latina – foi aprovada oficialmente em fevereiro deste ano pelos países participantes da Reunião Interministerial da Sociedade da Informação realizada em El Salvador e o projeto deverá ser implementado ainda em 2008.

Algumas descobertas

E o que mostra a pesquisa de prático? Entre outras possibilidades, permite comparar a situação brasileira em relação aos demais países que fazem parte do estudo, onde observamos que a realidade da região se repete em várias das 19 categorias. Como exemplos, podemos afirmar que:

os latino-americanos possuem mais de 75% de celulares pré-pagos, refletindo o poder aquisitivo da população. O fato da região usar majoritariamente pré-pagos poderá refletir também na aquisição de conteúdos digitais via celular, caso as empresas insistam em cobrar por esses produtos;
o uso de “gatos” ou TV por assinatura ilegal não é uma regra brasileira, já que ocorre em todos os países. A diferença é que poucos países oferecem dados oficiais sobre o tema, como ocorre no Chile, México e Peru.
Quanto a indústria editorial, sabe-se que o hábito de leitura da região se restringe a dois livros/ano, embora Argentina e México sejam importantes editores. Já o Brasil, o Peru e a Bolívia têm sua produção incrementada pela edição de livros didáticos, comprados pelos governos de cada país;
as indústrias de cinema e discográfica apresentam os mesmos problemas da concorrência com o mercado de copias piratas em todos os países estudados, sendo que, em alguns casos, as versões pirateadas chegam a 70% do mercado. Esse fato também se repete na copia de livros, embora com índices menores.
existe produção de jogos eletrônicos na Argentina, Brasil, Chile, México e Uruguai e, entre eles, o Brasil detém o quarto lugar na produção mundial;
quando se trata de produção independente para TV, o Brasil perde para Argentina, Colômbia, México e Venezuela, países que contam ou com forte incentivo do governo ou onde as empresas de radiodifusão têm tradição em comprar a produção independente;
nos conteúdos para celulares, o Brasil é um dos países da região que mais vem incentivando a produção, inclusive através da realização de concursos pelas empresas do setor;
a produção de conteúdos para diferentes plataformas tecnológicas ou voltado para a convergência digital representa um espaço de mercado ainda a ser descoberto na região e mostra um grande potencial exportador, já que existem 450 milhões de pessoas que falam Espanhol e outros 250 milhões que falam Português no mundo, sem contar as possíveis traduções para outras línguas ou o uso regular de línguas indígenas em oito dos 11 países estudados.
Para finalizar

Acreditamos que são necessárias algumas ações urgentes (assim como a definição de políticas públicas) para desenvolver as indústrias de conteúdo e a convergência digital na América Latina. Elas deverão ser realizadas tanto no plano local (em cada país) como no âmbito regional. São elas:

Desenvolvimento de um marco legal sobre o papel dos radiodifusores e empresas de telecomunicações (nacionais ou regionais) no que diz respeito à produção de conteúdos e a convergência tecnológica;
Desenvolvimento de políticas públicas que protejam as indústrias nacionais em relação à chegada de produtos similares internacionais, seja no que diz respeito a cota de mercado para a produção de filmes ou para produção de conteúdos para diferentes meios de comunicação;
Defesa e apoio às rádios comunitárias, produzidas em geral por associações ou sindicatos e que – com exceção de um ou dois países como é o caso da Venezuela – em geral são tratadas como caso de polícia e não como questão social e estratégica para os governos e para a democratização da comunicação;
Atualização das páginas Web que tratam de temas como as indústrias culturais, sobre questões culturais ou sobre os meios de comunicação, pois a maioria peca pela falta de atualização;
Sistematizar ou atualizar as informações sobre radiodifusão, telecomunicações, sobre concentração dos meios, assim como oferecer informações sobre os hábitos culturais de seus habitantes;
Envolver as universidades de cada país e da região na discussão dos temas tratados na pesquisa, estimulando o desenvolvimento de pesquisas e projetos tanto na área de produção de conteúdos, como no desenvolvimento de inovações tecnológicas;
Desenvolvimento de políticas para redes de banda larga, incentivando iniciativas como a Rede Clara para propiciar os fluxos de conteúdos [no Brasil a Rede Clara é representada pela Rede Nacional de Pesquisa –RNP que inclui atividades em 360 universidades públicas], os estudos na região, assim como as atividades do Observatório Latino-americano de Indústrias de Conteúdo, que deverá apresentar ambientes colaborativos. Aliás, a criação do Olicon dará visibilidade às ações de cada país em particular e da região como um todo, possibilitando o monitoramento dos avanços na indústria de produção de conteúdos, assim como o desenvolvimento de projetos com convergência tecnológica.
Publicado por José Murilo Junior
Categoria(s): Cultura Digital

http://www.cultura.gov.br/site/2008/03/05/as-industrias-de-conteudos-digitais-na-america-latina/

Um bom exemplo da USP

pensata
27/05/2008

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/colunas/gd270508.htm

Na semana passada, relatei aqui um péssimo exemplo da USP - sua Escola de Aplicação, apesar de estar dentro de um dos principais centros de saber do mundo, dispondo, em seu entorno, de bibliotecas, de museus e laboratórios, está longe de ser um modelo de excelência. Agora, cito um bom exemplo daquela universidade, justamente por significar uma invenção para melhorar a educação pública.

Resultado da experimentação de diversas turmas da pós-graduação da Fundação Vanzolini, ligada à Poli, será apresentado nesta semana um software destinado a exibir para uma escola o que existe ao seu entorno e que poderia ser utilizado por pais, alunos e professores. É uma espécie de Google de bairro, voltado às possibilidade de aprendizado aproveitando-as as redes de saúde, de cultura, de geração de renda, de assistência social, de esportes e lazer.

Esse programa, ainda em fase de testes, já chamou a atenção do Ministério da Educação e do Unicef, interessados em usá-lo, inicialmente, em regiões metropolitanas. Motivo: talvez sirva como um mecanismo de baixo custo para aproximar a escola da comunidade, além de aumentar o horário de aprendizado. Com um simples apertar de um botão, um professor poderia saber a quem encaminhar um aluno com problemas auditivos. Ou, para alunos mais agressivos, saberia oferecer programas de esporte ou apoio psicológico. Assim como teria a alista de atividades culturais e profissionalizantes gratuitas.

Uma das tarefas da universidade deveria ser ajudar a educação pública, com cursos de formação de professor, mecanismos de gestão, produção de currículos e até de jogos --a invenção daqueles alunos dá uma pista de que se pode fazer quando se juntam olhar inclusivo, articulação comunitária e pesquisa acadêmica.

Indústria criativa movimenta R$ 381 bilhões no país, diz Firjan

21/05/2008

Pesquisa leva em conta áreas como cinema, música, arquitetura e design.
Volume é equivalente a 16,4% do PIB brasileiro.
indústria criativa movimenta ao redor de R$ 381,3 bilhões no país, o equivalente a 16,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e emprega 35,2 milhões de pessoas. Os dados constam de um levantamento inédito feito pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) e leva em conta áreas que vão desde cinema e música até arquitetura e design, incluindo atividades indiretas, relacionadas a apoio em produção e serviços.

"No Brasil não havia sido feito, ainda, um levantamento assim, talvez porque não se prestou atenção que este é um dos setores que vêm crescendo no País", disse a diretora de desenvolvimento econômico da federação, Luciana de Sá. Segundo ela, no mundo, o comércio internacional de bens e serviços criativos cresceu a uma taxa anual de 8,7% de 2000 a 2005, bem acima da variação de 5% das exportações totais destes itens, com base em dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).



Atividades criativas, no critério da Unctad, são as que usam no ciclo de produção e distribuição itens que "usam a criatividade e capital intelectual como insumos primários". A pesquisa da Firjan levou em conta doze atividades principais: artes visuais, publicidade, expressões culturais, televisão, música, artes cênicas, filme e vídeo, mercado editorial, software, moda, arquitetura e design, além do grupo de serviços indiretos.



Estas doze áreas principais da cadeia criativa respondem por 2,6% do PIB brasileiro. O Rio de Janeiro é o Estado com o maior peso da chamada indústria criativa dentro do PIB local (4%), seguido de São Paulo (3,4%). Já as atividades relacionadas a estas áreas (material de artesanato, publicidade, instrumentos musicais, registro de marcas e patentes, dentro outras) equivalem a 5,4% da economia do País e as atividades de apoio (consultoria especializada, insumos, maquinários) a 8,4% - somando o peso total de 16,4%.

http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL489883-9356,00.html

Forum das Indústrias Criativas em Salvador

18.04.05

Centro Internacional das Indústrias Criativas deve ser referência para a Indústria Criativa Mundial

O ministro da Cultura, Gilberto Gil, lançou hoje, dia 18 de abril, em Salvador, as bases do Centro Internacional das Indústrias Criativas. A cerimônia aconteceu no Hotel Bahia Othon Palace (Avenida Oceânica, 229 - Ondina), às 9h30, quando foi iniciado o Forum Internacional das Indústrias Criativas.


Em entrevista coletiva à imprensa, o ministro explicou que o Fórum Internacional faz parte de uma negociação e articulação que já dura um ano, desde a XI UNCTAD – Conferência da Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento. "O Centro Internacional das Indústrias Criativas deve beneficiar todo mundo, mas acredito que ele será mais importante para os países em desenvolvimento", explicou Gil. Os três dias de discussão no Fórum servirão para o desenvolvimento de um "mapa" e de um "desenho" de como será o Centro Internacional das Indústrias Criativas - CIIC. Leia o discurso do ministro.


Atualmente, acredita-se que a Economia Criativa represente 1% do PIB nacional, "este valor chega a 7% do PIB em estados como Rio de Janeiro e Bahia, mas isto precisa ser estendido para o Brasil inteiro", explicou o ministro. Gil ainda ressaltou que, em países desenvolvidos como os Estados Unidos e também no continente europeu, já existe um reconhecimento da importância da cultura para a economia.

O CIIC deve se tornar uma referência para a organização, o fomento e a garantia de acesso público, de informação para a iniciativa privada, para a sociedade civil, para os governos e entidades não-governamentais. "Vai ser um marco para as Indústrias Criativas", disse o ministro. Uma das funções do Centro deve ser a discussão sobre políticas na área e a legislação, além do intercâmbio entre as demandas locais e globais. "O local e o global vão interagir e regulamentar a questão da Indústria Criativa", afirmou.


Também devem entrar para a pauta do Centro, discussões polêmicas como a questão das patentes e promoção de diálogos entre todos os agentes da Indústria.

Durante a coletiva, o Gilberto Gil enfatizou a necessidade de descentralização e falou sobre a fraqueza econômica de setores populares que podem apresentar alguma dificuldade para a implementação de uma Economia Criativa mais atuante.

O ministro da Cultura falou da necessidade da parceria entre as iniciativas pública e privada e disse que devemos ampliar o conceito de Cultura. "Para mim, tudo que não é natureza é Cultura", afirmou Gil. Ele também acredita que o Centro vai proporcionar um aumento da oferta de bens e serviços culturais, o que já é predominante na economia de países desenvolvidos.

Os jornalistas aproveitaram para comentar o caso de denúncia do jogador argentino Desábato, acusado de racismo. "O episódio mostra que houve um posicionamento do cumprimento da lei no sentido de inibir o racismo. A relação da sociedade com o ocorrido também foi positiva, inclusive na Argentina, onde 62% da população foram contra a atitude do jogador", opinou.

Também estiveram presentes o ministro do Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social, Jaques Wagner, o governador do Estado da Bahia, Paulo Souto, o prefeito de Salvador, João Henrique, os embaixadores Rubens Ricupero, Edgar Telles Ribeiro representando o ministro Celso Amorim que não pode comparecer, Carlos Lopes, representante da ONU, o reitor da Universidade Federal da Bahia, Naomar de Almeida Filho, Juca Ferreira, secretário-executivo do MinC e Paulo Miguez, secretário de Políticas Culturais.

No final da coletiva, o Secretário do Audiovisual do MinC, Orlando Senna entregou um Prêmio do Festival de Cinema do Recife oferecido ao ministro Gilberto Gil pelo conjunto de sua obra como músico e compositor.


(Luis Turiba, Nanan Catalão, Marcelo de Trói)
(Assessoria de Comunicação Social do MinC)

http://www.cultura.gov.br/noticias/noticias_do_minc/index.php?p=9261&more=1&c=1&pb=1

Nasce a Vila Mídia em São Paulo

15/04/2008

Erika Vieira
Heitor Augusto


Em breve, a Vila Leopoldina, na zona oeste da cidade de São Paulo, acabará ficando conhecida como a Vila Mídia. Isso porque o bairro ganhará novos espaços de produção audiovisual, além dos já existentes.

Nos últimos anos, produtoras de peso como a Quanta, a O2, a Ink, a Neogama e a Villa Boas vêm escolhendo o local por ser uma das poucas regiões da capital que ainda possui grandes áreas disponíveis. A localização, perto da Marginal Pinheiros, uma das principais vias de acesso da cidade, também favorece o transporte dos equipamentos. Outro fator que chamou a atenção dos empresários foi a existência de amplos galpões de fábricas desativadas, o que facilitou a adaptação física das produtoras de cinema. “São Paulo tinha uma carência de estúdios. Onde ter uma área superior a 10 mil m2 quando já estava tudo cheio? Há quatro anos, percebi que, nesse lado da Ceagesp, existiam áreas de baixo custo, porque aquela era uma região abandonada em decorrência das alagações e das empresas falidas que havia ali”, conta Marcelo Fujii, gestor operacional da Quanta.

As instalações deram tão certo que a Ink está levando mais oito empresas do grupo para o local. São elas: Margarida Flores e Filmes (produção audiovisual publicitária), Academia de Filmes (produção audiovisual para TV e Cinema), Academia de Cultura (ONG do grupo para projetos culturais), Ipanema (desenvolvimento de obras autorais para Cinema, TV e Literatura), Base7 Projetos Culturais (concepção, planejamento, desenvolvimento e coordenação de projetos culturais), Cia. das Licenças (licenciamento de produtos culturais), Ilegal FX (serviços de pós-produção e efeitos), Colméia (desenvolvimento e produção de conteúdos para novas mídias). No total, a nova sede ocupará um terreno de 10 mil m2 com 13 mil m2 de área construída.

O bairro também abrigará o novo prédio da Cinemateca e a sede da TV Brasil em São Paulo. “A Vila Leopoldina está caminhando para tornar-se a Vila dos Artistas, com diversas empresas do ramo de cultura, conteúdo e entretenimento instaladas lá. Isso atrai investimentos não só das próprias empresas em suas instalações mas também em melhorias para o bairro. Com o aumento da circulação, é inevitável que se invista também em serviços e em infra-estrutura”, diz Paulo Schmidt, presidente da Ink.

Agora, o quadrilátero do audiovisual, como é chamado pelas pessoas que trabalham ali, prepara-se para passar por um plano de reurbanização. Apesar da melhora, a região ainda enfrenta problemas. Além do acúmulo desordenado de caixas, os moradores têm de conviver com a prostituição e o tráfico de drogas. “Não basta expulsar as pessoas. Temos de fazer um plano de reurbanização”, diz Fujii. Por isso a Quanta está intermediando o projeto entre a prefeitura e o empresariado local. Se aprovado, a Vila Leopoldina terá novas calçadas, melhor iluminação, mais árvores e galerias pluviais reformadas. Até o muro da Ceagesp deve ficar de cara nova com uma pintura de grafites que vai virar documentário.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/cbn/m_sp_150408.shtml

Economia da Cultura: Um Setor Estratégico para o País

01 de abril de 2008


"O PRODEC trabalha na formulação e implantação de projetos voltados ao desenvolvimento e à dinamização dos principais segmentos da Economia da Cultura no país"


Paula Porta
Assessora especial do Ministro da Cultura e
Coordenadora do Prodec

A produção, a circulação e o consumo de bens e serviços culturais começaram a ser percebidos como um segmento de peso na economia das nações já no pós-guerra. Mas foi apenas na década de 1970 que se aprofundou o interesse pelo setor e a Economia da Cultura passou a mobilizar pesquisadores em algumas universidades. Na década de 1990, ganha espaço nos órgãos internacionais de cooperação, começando a ser entendida como um vetor de desenvolvimento. Progressivamente órgãos como BID, PNUD, OEA, Unesco passam a incluir questões relacionadas à Economia da Cultura em seu escopo de ação.

O Banco Mundial estima que a Economia da Cultura responda por 7% do PIB mundial (2003). Nos EUA a cultura é responsável por 7,7% do PIB, por 4% da força de trabalho e os produtos culturais são o principal item de exportação do país (2001). Na Inglaterra, corresponde a 8,2% do PIB (2004), emprega 6,4% da força de trabalho e cresce 8% ao ano desde 1997.

A Economia da Cultura, ao lado da Economia do Conhecimento (ou da Informação), integra o que se convencionou chamar de Economia Nova, dado que seu modo de produção e de circulação de bens e serviços é altamente impactado pelas novas tecnologias, é baseado em criação e não se amolda aos paradigmas da economia industrial clássica. O modelo da Economia da Cultura tende a ter a inovação e a adaptação às mudanças como aspectos a considerar em primeiro plano. Nesses setores a capacidade criativa tem mais peso que o porte do capital.

As novas tecnologias, sobretudo a digital, criaram novos produtos, novas formas de produzir, de divulgar, de distribuir e de consumir, conseqüentemente, criaram novos modelos de negócio e novas formas de competição por mercados.

A Economia da Cultura é hoje o setor de maior dinamismo na economia mundial, tem registrado crescimento de 6,3% ao ano, enquanto o conjunto da economia cresce a 5,7%. A Economia da Cultura integra o segmento de serviços e lazer, cuja projeção de crescimento é superior à de qualquer outro, estima-se que cresça 10% ao ano na próxima década1. Esse potencial de crescimento é bastante elástico, pois o setor depende pouco de recursos esgotáveis, já que seu insumo básico é a criação artística ou intelectual e a inovação.

Além, de seu dinamismo, há um conjunto de características que vem conferindo à Economia da Cultura status de setor estratégico na pauta das estratégias de modernização e desenvolvimento:

a geração de produtos com alto valor agregado, cujo valor de venda é em grande medida arbitrável pelo criador;

a alta empregabilidade e a diversidade de empregos gerados em todos os níveis, com remuneração acima da média dos demais;

o baixo impacto ambiental;

seu impacto positivo sobre outros segmentos da economia, como no caso da relação direta entre a produção cultural e a produção e venda de aparelhos eletrônicos (tv, som, computadores etc.) que dependem da veiculação de conteúdo;

suas externalidades sociais e políticas são robustas. Os bens e serviços culturais carregam informação, universos simbólicos, modos de vida e identidades; portanto, seu consumo tem um efeito que abrange entretenimento, informação, educação e comportamento. Desse modo, a exportação de bens e serviços culturais tem impacto na imagem do país e na sua inserção internacional;

o fato do desenvolvimento econômico desse setor estar fortemente vinculado ao desenvolvimento social, seja pelo seu potencial altamente inclusivo, seja pelo desenvolvimento humano inerente à produção e à fruição de cultura;

o potencial de promover a inserção soberana e qualificada dos países no processo de globalização.

Diante de tantos atributos, criar mecanismos diferenciados e adequados de desenvolvimento e fomento da Economia da Cultura, que é baseada em grande parte em ativos intangíveis, é um desafio a ser enfrentado de imediato.

Afora o caso paradigmático dos EUA, que já não requer ação estratégica do Estado, podemos citar o exemplo da Inglaterra, que conta com um ministério das indústrias criativas, independente do Ministério da Cultura, como marco da crescente importância que o setor vem adquirindo nas economias nacionais. Do mesmo modo, já começam a se estabelecer programas em estados e, mesmo, em municípios, que identificaram vocações locais capazes de gerar dinâmica econômica.

A ECONOMIA DA CULTURA NO BRASIL
Nosso país possui evidente vocação para tornar a Economia da Cultura um vetor de desenvolvimento, baseado na sua diversidade cultural e na sua alta capacidade criativa.

O Brasil tem importantes diferenciais competitivos nesse setor:

a facilidade de absorção de novas tecnologias;

a criatividade e a vocação para inovação;

a disponibilidade de profissionais de alto nível em todos os segmentos da produção cultural;

a alta qualidade e a boa aceitação de nossos produtos culturais em diferentes mercados.

Além disso, o Brasil possui um mercado interno muito expressivo, onde a produção cultural nacional tem ampla primazia sobre a estrangeira. A música e o conteúdo de TV são exemplos robustos, em que o predomínio chega a 80%.

A conjuntura externa também é amplamente favorável, o Brasil está na moda e precisa consolidar os mercados conquistados e ampliar a presença de sua produção em novos mercados. É preciso que a cultura integre de forma vigorosa a pauta de promoção de exportações.

A participação da cultura nas atividades econômicas do país já é bastante expressiva, como mostram os números que começam a ser sistematicamente coletados pelo IBGE a partir do convênio firmado com o Ministério da Cultura, que também prevê a construção dos indicadores da Economia da Cultura e que deverá culminar no estabelecimento do PIB da Cultura.

Atuam no país 320 mil empresas voltadas à produção cultural, que geram 1,6 milhão de empregos formais. Ou seja, as empresas da cultura representam 5,7% do total de empresas no país e são responsáveis por 4% dos postos de trabalho.

O salário médio mensal pago pelo setor da cultura é de 5,1 salários mínimos, equivalente à média da indústria, e 47% superior à média nacional.

A segunda pesquisa lançada pelo convênio MinC-IBGE, o anexo Cultura à Pesquisa de Informações Básicas Municipais (a Munic 2006); levantou dados relativos à presença da cultura nas 5.564 cidades brasileiras. O investimento público dos municípios em cultura ainda é bastante restrito, não ultrapassa a média de 0,9% do orçamento total das prefeituras (proporção praticamente idêntica ao orçamento do MinC frente ao orçamento da União). Recife atualmente é uma das poucas cidades onde esse índice é mais elevado, chega próximo ao recomendado pela Unesco (2%).

A pesquisa aponta números relativos a equipamentos e ações culturais. A presença de lojas de discos e dvds cresceu 74% em sete anos; o número de salas de cinema cresceu 20%, apesar delas estarem presentes em apenas 8,7% das cidades; já as videolocadoras estão em 82% das cidades brasileiras. O número de salas de espetáculo cresceu 55%; o de museus 41% e o de bibliotecas 17%. As rádios comunitárias estão em 49% dos municípios, superando as fms (em 34%) e as ams (em 21%); e a tv está em 95,2% dos municípios.

A atividade cultural mais presente nos municípios é o artesanato (64,3%), seguida pela dança (56%), bandas (53%) e a capoeira (49%), esta última além da expressiva presença no país é, ao lado da música, um dos segmentos que maior interesse despertam no exterior. Os festivais apresentam-se como a mais dinâmica forma de difusão cultural no país: 49% das cidades contam com festival de cultura popular, 39% com festival de música, 36% com festival de dança, 26% com festival de teatro e 10% com festival de cinema.

Os números confirmam que um dos principais gargalos no desenvolvimento da Economia da Cultura é a concentração e baixa capilaridade dos equipamentos culturais, que dificulta a circulação e o acesso a produtos e serviços. Dificuldade que é parcialmente suprida pelos festivais.

OS DESAFIOS
O desenvolvimento da economia da cultura exige mecanismos diversificados de fomento, diferentes da política de apoio via leis de incentivo fiscal. É preciso formular ações integradas e contínuas que enfrentem os principais gargalos do setor.

Implantar uma estratégia para esse setor - envolvendo financiamento, legislação, capacitação e regulação - é um desafio imediato se quisermos aproveitar oportunidades geradas pelas novas tecnologias que estão alterando modelos de negócio e formas de acesso a mercados. Esse desafio envolve Estado, entidades setoriais e iniciativa privada e requer:

implantar agendas para o desenvolvimento dos segmentos mais dinâmicos e estratégicos;

aprofundar o conhecimento sobre os segmentos para subsidiar as políticas de fomento e estimular o planejamento estratégico de empresas e de políticas públicas. Isso envolve a construção de indicadores, a coleta de dados primários, os diagnósticos setoriais, o estudo das cadeias produtivas e dos modelos de negócio, o mapeamento dos empreendedores;

capacitar empresas e produtores, sobretudo no que diz respeito aos novos modelos de negócio, à inserção no mercado (nacional e internacional) e à gestão de propriedade intelectual (essa uma absoluta prioridade face os riscos de desnacionalização de propriedade intelectual);

identificar vocações regionais e oportunidades no mercado interno e externo, que ajudem a definir o foco prioritário das ações;

capilarizar e dinamizar a distribuição, a circulação e a divulgação de produtos e serviços culturais, já que este tripé é hoje o maior gargalo no desenvolvimento de todos os segmentos da Economia da Cultura;

enfrentar a necessidade de atualizar a legislação pertinente ao setor e identificar as necessidades de regulação.

AS AÇÕES DO MINC E O PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO DA ECONOMIA DA CULTURA
A cultura como economia com características que exige ações diferenciadas para promover seu desenvolvimento é um dos eixos prioritários da ação do MinC. Em 2006, criamos o Programa de Desenvolvimento da Economia da Cultura (Prodec).

Trabalhamos com o termo Economia da Cultura ao invés de Economia Criativa ou Indústria Criativa por entendermos que o primeiro, ao invés de delimitar o campo, o alarga, pois abrange outros setores como ciência e tecnologia. Já o conceito de indústrias criativas circunscreve o campo aos setores regidos por patente e propriedade intelectual.

A propriedade intelectual é, sem dúvida, um dos grandes ativos da Economia da Cultura, mas muitos segmentos economicamente dinâmicos, como o das festas populares, não são necessariamente geradores de propriedade intelectual. O termo indústrias criativas não dá conta do conjunto da economia da cultura no Brasil.

A Economia da Cultura, no âmbito do Prodec, abrange todos os setores que envolvem criação artística ou intelectual, individual ou coletiva, assim como os produtos e serviços ligados à fruição e à difusão de cultura (como museus, patrimônio histórico, salas de espetáculo, turismo cultural etc.). São eles:

Todos os segmentos artísticos (música, audiovisual, artes cênicas, artes visuais)

Telecomunicações e radiodifusão (conteúdo)

Editorial (livros e revistas)

Arte popular e artesanato

Festas populares

Patrimônio Histórico Material e Imaterial (suas formas de utilização e difusão)

Software de lazer

Design

Moda

Arquitetura

Propaganda (criação)



Consideramos os pólos mais dinâmicos da Economia da Cultura no Brasil:

Música (produtos e espetáculos).

Audiovisual (em especial conteúdo de tv, animação, conteúdo de Internet e jogos eletrônicos).

Festas e expressões populares (onde se destacam o Carnaval, o São João, a capoeira e o artesanato).



O Ministério da Cultura, desde o início da atual gestão, vem dialogando e estabelecendo parcerias com órgãos federais de fomento e pesquisa para inclusão em seus escopos de trabalho de ações voltadas à Economia da Cultura. No caso dos bancos, há um trabalho importante de adaptação de mecanismos de fomento às características de um setor que tem como base ativos intangíveis, o que costuma ser uma barreira, principalmente no tocante às garantias para uso de instrumentos diferenciados de crédito.

Com o BNDES desenvolvemos linhas especiais de crédito para a instalação de salas de cinema, programas editoriais e produção de conteúdo audiovisual (uma linha para a música já está em estudo). Com o Banco do Nordeste, trabalhamos na adaptação das linhas de microcrédito para a realidade do setor, o que resultou numa mudança significativa no tocante às garantias. Com o Banco da Amazônia as ações seguem na mesma linha. Estão em curso formulações com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.

O convênio com o IBGE, firmado em 2004, que já resultou nas pesquisas mencionadas, prevê a coleta sistemática de dados sobre a cultura, a construção de indicadores e deve culminar no estabelecimento do PIB da cultura. Com o Sebrae trabalhamos na elaboração de seu termo de referência para orientar as ações voltadas à cultura, e devemos avançar na formulação de programas de capacitação para atender às necessidades das empresas do setor. O IPEA tem sido parceiro no encaminhamento de pesquisas.

Na área de cooperação internacional, além de convênios para troca de experiências e ações de reciprocidade com os centros de Buenos Aires e Barcelona, estabelecemos parceria com o BID para a contratação de pesquisas de cadeia produtiva e consultorias especializadas.

A execução das ações no âmbito do PRODEC pressupõe parcerias institucionais com órgãos governamentais (federais, estaduais e municipais), órgãos internacionais, associações setoriais e outras organizações com reconhecida capacidade de atuar diretamente junto aos empreendedores do setor.

Alguns estados brasileiros já começam a planejar ações de fomento à Economia da Cultura, principalmente relativas à coleta de informação e à capacitação.



O Prodec está estruturado em 4 eixos de ação:

coleta e produção de informação: diagnósticos, construção de indicadores, coleta e sistematização de dados, estudos e pesquisas. Visa dar suporte à formulação e implantação de mecanismos de fomento aos diversos segmentos da Economia da Cultura.

capacitação:

a) de empreendedores, cooperativas e empresas: visa promover a qualificação e atualização de profissionais, cooperativas e empresas do setor, com foco em gestão empresarial, novos modelos de negócio, gestão de propriedade intelectual, inovação e exportação, de modo a qualificar e ampliar sua inserção no mercado interno e externo.

b) de técnicos de nível médio: visa estimular a formação de profissionais especializados de acordo com a identificação de demandas dos segmentos da cultura.

promoção de negócios: apoio a feiras de negócios setoriais (não inclui feiras exclusivamente de produtos), exportação, logística de distribuição de bens e serviços, atualização tecnológica e de infra-estrutura e outros. Visa promover a ampliação do volume de negócios dos diversos setores, o aumento das exportações e o barateamento de produtos e serviços, ampliando o consumo e o acesso.

formulação de produtos financeiros: visa dar suporte às instituições financeiras e de fomento na formulação de produtos adequados às necessidades dos segmentos da Economia da Cultura.

O programa trabalha na formulação e implantação de projetos voltados ao desenvolvimento e à dinamização dos principais segmentos da Economia da Cultura no país. Busca articular projetos de modo a enfrentar gargalos. A ação do programa não se dá através de apoio a projetos pontuais.

Fomentar o desenvolvimento da Economia da Cultura requer ações diferenciadas tanto das tradicionais políticas de fomento via fundos de cultura ou leis de incentivo fiscal, quanto das políticas de fomento a outros setores da economia. Do mesmo modo, ações que tem por finalidade a geração de renda através da cultura apenas tangencialmente se relacionam com o desenvolvimento da Economia da Cultura.

Ainda é preciso evoluir muito, tanto nas ações de fomento, quanto na capacidade de formulação e planejamento por parte dos realizadores e organizações do setor. É preciso ultrapassar a lógica de projetos pontuais em prol de estratégias de desenvolvimento.

A diversa e sofisticada produção cultural brasileira, para além de sua indiscutível relevância simbólica e social, deve ser entendida também como um dos grandes ativos econômicos do país, pelo seu potencial de gerar desenvolvimento qualificado. É preciso reconhecer esse potencial e fomentá-lo, pois isso significa a geração de riqueza e inclusão social, além de uma inserção qualificada no país no cenário internacional.
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Economia da cultura tem crescimento acima da média

29 de fevereiro de 2008


Alessandro Soares / ASN - Agência Sebrae de Notícias, 29/02/2008
Espetáculos de circo, arranjos produtivos de entretenimento, incubadora de audiovisual e feiras de música marcam a atuação do Sebrae no apoio aos empreendimentos culturais

Brasília - As lojas de disco disfarçam, mas o modelo convencional do CD de fato agoniza. Para piorar, 2007 será lembrado pelo lançamento de In Rainbows, novo trabalho da banda britânica Radiohead, em que cada comprador decide quanto pagar para baixá-lo na internet, para desespero de gravadoras e lojistas. É também o ano marcado pela criação do Kindle, aquele aparelhinho com tela de 15 centímetros, que armazena até 200 livros.

Ainda é cedo para saber se o livro de papel será trocado por essa espécie de literatura mp3. Mas realmente os novos produtos culturais confundem e o futuro é nebuloso para a indústria cultural, o que não quer dizer que artistas e empresas do ramo vão falir. Ao contrário. A economia da cultura é o setor mais dinâmico da economia mundial. O crescimento médio é de 6,3% ao ano, enquanto o conjunto da economia cresce 5,7%.

O Brasil não registra números assim, mas a curva é ascendente. Para o IBGE (2003), mais de 269 mil empresas atuam na produção cultural brasileira, ocupando mais de 1,4 milhão de profissionais. Por conta disso, o Sebrae tem apoiado feiras de música, festivais de TV e cinema e projetos de exportação de músicas e programas de TV e até shows de circo. Um bom exemplo é o produtor circense Junior Perim, 35, do Rio de Janeiro.

Circo Crescer e Viver

Vítima do trabalho infantil, Junior aos oito anos já catava caranguejo no litoral fluminense. Aos 11, matava galinhas num abatedouro de São Gonçalo (RJ), em jornada diária de 15 horas. Só aos 14 seguiu novo rumo. Começou a estudar e ingressou em movimentos comunitários. Já adulto, atuava com jovens de baixa renda, com o programa social de arte-educação ‘Crescer e Viver’. Em 2003, o projeto virou uma organização não-governamental.

Hoje, Junior Perim coordena dois centros. Um deles fica em São Gonçalo, onde acontecem oficinas de teatro, dança, capoeira, grafite e basquete de rua para 200 pessoas carentes de 7 a 24 anos. Já na lona do circo da Praça Onze, no Rio, são treinadas 300 pessoas com o mesmo perfil, em 16 tipos de oficinas circenses (acrobacias, trampolim acrobático, malabares e equilibrismo).

Além de interlocutor internacional da Rede Circo do Mundo Brasil, junto ao Cirque du Soleil, e da chancela da Unesco, Perim foi cavando cada vez mais espaço. “Com o apoio do Sebrae no Rio de Janeiro, introduzi técnicas de economia criativa, pois entendia que a inclusão social exigia também inclusão econômica”, afirma. Para isso, concebeu o espetáculo ‘Vida de Artista’, com patrocínio da Petrobras, e passou a produzir e vender a marca do seu circo em bolsas, roupas e acessórios.

Para compor o elenco, Junior Perim recrutou dezenas de jovens carentes até selecionar a atual trupe de 15 pessoas. A trilha sonora foi composta por Daniel Gonzaga (filho de Gonzaguinha), que montou estúdio na lona, junto com a garotada. O figurino também foi criado no local.

Quem ainda não assistiu às primeiras temporadas do espetáculo, na Praça Onze, poderá conferir em fevereiro de 2008 no Circo Voador, na Lapa. A Veja Rio já o elegeu como segundo melhor espetáculo cênico da cidade. “Isso nunca havia ocorrido antes com circo. Só dava teatro. Agora quero mais. Estou negociando com a Petrobras uma turnê para 10 cidades brasileiras. E pode anotar: em 10 anos, o Crescer e Viver será o melhor grupo de circo do Brasil”.

APL de entretenimento e incubadora de audiovisual

O Sebrae no Rio também atua em Conservatória, distrito do município de Valença (RJ), onde existe um arranjo produtivo local (APL) de entretenimento, com 70 empreendimentos que geram 508 empregos. O carro-chefe é a música, com seresteiros que invadem as ruas tocando temas de Nelson Gonçalves, Vicente Celestino e Silvio Caldas. Não por acaso a cidade é repleta de museus desses e de outros artistas da Era do Rádio. “Em 2008, queremos criar uma rede de museus”, destaca Heliana Marinho, gerente de Economia Criativa do Sebrae Rio.

Com se observa, o Sebrae leva para as artes todas as suas ferramentas de gestão. Se em Conservatória apóia o APL de entretenimento, em Cataguases, Minas Gerais, também está presente na incubadora de cultura Fábrica do Futuro, focada no audiovisual. A cidade se orgulha do passado cultural e dos filmes de Humberto Mauro, grande pioneiro do cinema brasileiro.

Para o diretor da Fábrica do Futuro, César Piva, a incubadora não é de empresas, nem é tecnológica. “Estamos incubando um processo que estimule a cadeia da economia criativa. Também formamos um público ávido por cultura e profissionais atentos ao mercado da cidade, evitando o êxodo para a capital”.

Nesse sentido, Cataguases fervilha. Só em 2007, foram realizados o III Festival de Cinema dos Países de Língua Portuguesa (Cineport), o Circuito Mineiro do Audiovisual, e a oficina A Fotografia como Documentação, entre várias outras atrações. Para 2008, uma das novidades é o Festival de Ver e Fazer Filmes. “Tudo isso - aliado ao estudo estético e filosófico - é mais importante do que a manipulação técnica. Hoje, qualquer pessoa tem uma câmara na mão, com os aparelhos celulares. Mas para ter boas idéias é preciso mais esforço”.

Feira de música

No Ceará, o Sebrae igualmente apóia projetos audiovisuais, como o Festival Internacional da TV. Mas a maior presença é na música, a exemplo do Esquina Brasil, que promove cantores e instrumentistas locais e tem versões também da Paraíba e no Rio Grande do Norte. Criado pela Associação dos Produtores de Discos do Ceará (Prodisc), em parceria com o Sebrae, o programa produziu quatro CDs, com 70 bandas, nos mais variados estilos. Do renomado Quinteto da Paraíba à menos conhecida Dona Zefinha, que se apresentou recentemente na Feira de Música PopKomm, na Alemanha.

A excursão de Dona Zefinha foi facilitada com os contatos da Feira de Música de Fortaleza, que promoveu sua sexta edição, em agosto. No Recife, este mesmo evento foi realizado em fevereiro, no embalo das comemorações do centenário do frevo, onde pela primeira vez foi formada uma rodada de negócios para a música. A feira recifense registrou 174 reuniões. A previsão é de que em 12 meses os contatos da rodada gerem R$ 109 milhões.

Sapo Xulé

As cifras são também risonhas nas exportações de programas de TV, como para a produtora de São Paulo ‘Cinemas Animadores’, autora do seriado Sapo Xulé, feito em parceria com a canadense FRV. Orçado em R$ 5 milhões, o programa será exibido, em 2008, em emissoras do Canadá, França, Inglaterra e países da América Latina.

Para ser veiculado no Brasil, a produtora abriu mão da proposta inicial de capítulos de 22 minutos (modelo bem aceito no Canadá, mas recusado em nosso País), e resolveu criar intercomerciais de 2,5 minutos cada. “É muito bom para ser veiculado em aparelhos celulares, na internet e também na TV aberta”, aposta Sílvia Prado, diretora do projeto.

Como a Cinemas Animadores, várias outras produtoras têm bons motivos para brindar o novo ano. Na retrospectiva de 2007, fica na memória o grande avanço da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, que veio facilitar e muito a vida das empresas especializadas em produção cultural. E, independentemente das novas tecnologias, a previsão é de que a economia da cultura vai continuar crescendo.