quarta-feira, 25 de junho de 2008

ECONOMIA CRIATIVA: Um olhar estrangeiro

Reconhecer a diferença e não homogeneizar a riqueza cultural brasileira que está nas favelas e, ao mesmo tempo, nas classes mais abastadas. É o que Jordi Pardo, diretor do Laboratório de Cultura da Barcelona Media, defende quando o assunto é o grande potencial de desenvolvimento da economia criativa no Brasil. Jordi fala do projeto 22@Barcelona como uma referência, que visa à construção de um espaço empresarial e cultural em uma área de 4 milhões de m2 na cidade espanhola, com oportunidade de emprego para mais de 130 mil pessoas. O projeto deve ter sua primeira metade concluída em 2008 e abrigará desde instituições públicas, como universidades e órgãos oficiais, até corporações, como Telefónica e Yahoo.

Em entrevista exclusiva ao Nós da Comunicação, concedida durante sua visita ao Rio de Janeiro, Jordi aponta o Brasil como uma potência cultural, criativa e com oportunidades excepcionais. Mas lembra que, para isso, é necessário criar mecanismos que possibilitem descobrir os grandes talentos e, a partir daí, abrir as portas para a democracia cultural e econômica.

Nós da Comunicação – Como a diversidade cultural brasileira pode ser utilizada no fomento da economia criativa no país?
Jordi Pardo – A economia criativa é uma leitura contemporânea. As Nações Unidas já estão vivenciando essa nova realidade e sabem que, atualmente, esse setor já corresponde a 8 por cento do PIB mundial. Uma cultura rica, diversa e diferenciada tem mais oportunidades de negócios para oferecer e, portanto, pode ser uma economia mais criativa e inovadora. Qualquer projeto baseado na diversidade tem mais força para se desenvolver. O Brasil conta com variedade de tradições e culturas, tornando o seu potencial ainda maior.

Nós da Comunicação – Como percebe o potencial do Brasil para a economia criativa?
J. P. - Na economia criativa, há um mapa de setores, que vai da arquitetura e do urbanismo ao turismo. Se observarmos o arranjo estrutural de cada um deles, vemos o grande potencial de crescimento do Brasil. Um exemplo é o próprio turismo. Por ter clima favorável e cidades exuberantes, o Brasil tem um potencial de crescimento extraordinário, mas esse é apenas um segmento no setor da economia criativa. Em 2005, o país recebeu três bilhões de euros de receita do turismo, volume pequeno comparado ao dos países que têm investido no setor. Isso mostra que o Brasil pode crescer muito em todas as áreas, como produção de conteúdo e indústrias culturais. Mas ainda há um caminho a ser percorrido.

Nós da Comunicação - Assim como ocorreu em Barcelona?
J. P. - Não é necessário olhar para outro exemplo, porque não acredito que haja soluções que possam ser copiadas literalmente. O interessante é que o Brasil tem muitos potenciais e, em função disso, pode se tornar uma potência mundial em diferentes setores, inclusive turística. No entanto, o país pode cair nos mesmos erros cometidos em Barcelona, hoje a segunda maior potência em turismo. Para se ter uma idéia, o turismo catalão teve impacto de 12 por cento no PIB nacional, a cidade de Barcelona participou com 14 por cento e a cultura com 4 por cento. Por isso, o importante não é copiar o que fizemos bem, mas evitar os erros que cometemos para que o Brasil possa crescer melhor e com programa adequado.

QUAIS OS CAMINHOS A SEGUIR?

Nós da Comunicação - Que exemplos citaria de países que conseguiram desenvolver o setor da economia criativa?
J. P. - Os exemplos são os que temos acompanhado atualmente em Barcelona e nas demais cidades da Europa. Vale observar a grandeza dessa economia por ser muito mais democrática que qualquer outra grande revolução econômica. Isso porque nela o fundamental é o talento, a cultura e o conhecimento, patrimônios de todos os povos. Em função disso, todos têm potencial de crescimento. Mas é importante unir esses elementos por meio da tecnologia. E o Brasil tem partida tecnológica e também management. Mas ter os ingredientes não basta. É preciso ter gestão voltada para management, tecnologia e cultura.

Nós da Comunicação - Qual o papel do governo na consolidação desse setor?
J. P. - Mais importante que o papel do governo é a atitude de cada pessoa. É preciso despertar o sentimento nos profissionais envolvidos no desenvolvimento da economia criativa, porque há um futuro promissor. Mas isso não depende apenas do governo, depende da força de cada um e da sua postura profissional. É claro que o relacionamento entre o setor público e o privado também é fundamental. E aqui, no Brasil, há muitíssimo para fazer. Como motores das iniciativas da economia criativa, as pessoas, a sociedade civil, o setor privado - que já está promovendo ações bastante interessantes - e o setor público devem se unir em prol desse grande projeto.

Nós da Comunicação - A partir do estágio atual da economia criativa no Brasil, como analisa o futuro desse setor no país? Estamos no caminho certo?
J. P. - Os brasileiros estão dando passos interessantes. Não apenas por realizar fóruns sobre economia criativa, mas porque o ministro da Cultura, Gilberto Gil, assumiu essa missão. Isso pode ajudar da iniciativa privada à administração pública, incluindo a sociedade civil nos seus diferentes níveis. Já é um caminho. E digo mais: seria interessante realizar fóruns para compartilhar as boas experiências e as iniciativas já realizadas, de forma a divulgar e a ampliar ainda mais o setor em todo o país.

Cristina Souto Rangeiro
Fonte: Nós da Comunicação

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