quarta-feira, 25 de junho de 2008

ECONOMIA CRIATIVA: Um olhar estrangeiro

Reconhecer a diferença e não homogeneizar a riqueza cultural brasileira que está nas favelas e, ao mesmo tempo, nas classes mais abastadas. É o que Jordi Pardo, diretor do Laboratório de Cultura da Barcelona Media, defende quando o assunto é o grande potencial de desenvolvimento da economia criativa no Brasil. Jordi fala do projeto 22@Barcelona como uma referência, que visa à construção de um espaço empresarial e cultural em uma área de 4 milhões de m2 na cidade espanhola, com oportunidade de emprego para mais de 130 mil pessoas. O projeto deve ter sua primeira metade concluída em 2008 e abrigará desde instituições públicas, como universidades e órgãos oficiais, até corporações, como Telefónica e Yahoo.

Em entrevista exclusiva ao Nós da Comunicação, concedida durante sua visita ao Rio de Janeiro, Jordi aponta o Brasil como uma potência cultural, criativa e com oportunidades excepcionais. Mas lembra que, para isso, é necessário criar mecanismos que possibilitem descobrir os grandes talentos e, a partir daí, abrir as portas para a democracia cultural e econômica.

Nós da Comunicação – Como a diversidade cultural brasileira pode ser utilizada no fomento da economia criativa no país?
Jordi Pardo – A economia criativa é uma leitura contemporânea. As Nações Unidas já estão vivenciando essa nova realidade e sabem que, atualmente, esse setor já corresponde a 8 por cento do PIB mundial. Uma cultura rica, diversa e diferenciada tem mais oportunidades de negócios para oferecer e, portanto, pode ser uma economia mais criativa e inovadora. Qualquer projeto baseado na diversidade tem mais força para se desenvolver. O Brasil conta com variedade de tradições e culturas, tornando o seu potencial ainda maior.

Nós da Comunicação – Como percebe o potencial do Brasil para a economia criativa?
J. P. - Na economia criativa, há um mapa de setores, que vai da arquitetura e do urbanismo ao turismo. Se observarmos o arranjo estrutural de cada um deles, vemos o grande potencial de crescimento do Brasil. Um exemplo é o próprio turismo. Por ter clima favorável e cidades exuberantes, o Brasil tem um potencial de crescimento extraordinário, mas esse é apenas um segmento no setor da economia criativa. Em 2005, o país recebeu três bilhões de euros de receita do turismo, volume pequeno comparado ao dos países que têm investido no setor. Isso mostra que o Brasil pode crescer muito em todas as áreas, como produção de conteúdo e indústrias culturais. Mas ainda há um caminho a ser percorrido.

Nós da Comunicação - Assim como ocorreu em Barcelona?
J. P. - Não é necessário olhar para outro exemplo, porque não acredito que haja soluções que possam ser copiadas literalmente. O interessante é que o Brasil tem muitos potenciais e, em função disso, pode se tornar uma potência mundial em diferentes setores, inclusive turística. No entanto, o país pode cair nos mesmos erros cometidos em Barcelona, hoje a segunda maior potência em turismo. Para se ter uma idéia, o turismo catalão teve impacto de 12 por cento no PIB nacional, a cidade de Barcelona participou com 14 por cento e a cultura com 4 por cento. Por isso, o importante não é copiar o que fizemos bem, mas evitar os erros que cometemos para que o Brasil possa crescer melhor e com programa adequado.

QUAIS OS CAMINHOS A SEGUIR?

Nós da Comunicação - Que exemplos citaria de países que conseguiram desenvolver o setor da economia criativa?
J. P. - Os exemplos são os que temos acompanhado atualmente em Barcelona e nas demais cidades da Europa. Vale observar a grandeza dessa economia por ser muito mais democrática que qualquer outra grande revolução econômica. Isso porque nela o fundamental é o talento, a cultura e o conhecimento, patrimônios de todos os povos. Em função disso, todos têm potencial de crescimento. Mas é importante unir esses elementos por meio da tecnologia. E o Brasil tem partida tecnológica e também management. Mas ter os ingredientes não basta. É preciso ter gestão voltada para management, tecnologia e cultura.

Nós da Comunicação - Qual o papel do governo na consolidação desse setor?
J. P. - Mais importante que o papel do governo é a atitude de cada pessoa. É preciso despertar o sentimento nos profissionais envolvidos no desenvolvimento da economia criativa, porque há um futuro promissor. Mas isso não depende apenas do governo, depende da força de cada um e da sua postura profissional. É claro que o relacionamento entre o setor público e o privado também é fundamental. E aqui, no Brasil, há muitíssimo para fazer. Como motores das iniciativas da economia criativa, as pessoas, a sociedade civil, o setor privado - que já está promovendo ações bastante interessantes - e o setor público devem se unir em prol desse grande projeto.

Nós da Comunicação - A partir do estágio atual da economia criativa no Brasil, como analisa o futuro desse setor no país? Estamos no caminho certo?
J. P. - Os brasileiros estão dando passos interessantes. Não apenas por realizar fóruns sobre economia criativa, mas porque o ministro da Cultura, Gilberto Gil, assumiu essa missão. Isso pode ajudar da iniciativa privada à administração pública, incluindo a sociedade civil nos seus diferentes níveis. Já é um caminho. E digo mais: seria interessante realizar fóruns para compartilhar as boas experiências e as iniciativas já realizadas, de forma a divulgar e a ampliar ainda mais o setor em todo o país.

Cristina Souto Rangeiro
Fonte: Nós da Comunicação

Economia criativa: modo de usar

De acordo com o Sistema de Informações e Indicadores Culturais de 2006, elaborado pelo IBGE em parceria com o Ministério da Cultura, o Brasil tem cerca de 89 milhões de trabalhadores com idade a partir de 10 anos. Destes, 4,2 milhões, ou 4,8, estão inseridos em atividades com algum viés cultural. Os dados revelam um potencial evidente para o desenvolvimento da chamada economia criativa (ou economia da cultura) no país. Mas tais evidências ainda não foram percebidas pela maioria das empresas brasileiras, que - por desconhecimento e/ou conservadorismo - deixam de explorar um filão que já responde por 8 do PIB mundial.

A análise é de Lala Deheinzelin, fundadora da Enthusiasmo Cultural, empresa especializada em desenvolver estratégias governamentais e corporativas de economia criativa. Consultora especial da ONU para o tema, ela revela aspectos de um conceito que já faz parte do novo cenário corporativo, no qual o comunicador enfrentará novos desafios, tornando-se um profissional transdisciplinar.

INGLATERRA VISIONÁRIA
Uma das chaves para se entender a economia criativa é diferenciar produção artística de cultura. Esta deve ser percebida, portanto, num sentido mais abrangente. “Arte é apenas um dos aspectos da economia criativa, um conceito muito mais amplo, incluindo setores que têm na cultura e na criatividade sua matéria-prima. Áreas como entretenimento e turismo, por exemplo, fazem interfaces com a cultura”, diz Lala.

Economia criativa, portanto, abarca atividades divididas em quatro núcleos: artes, produção de conteúdos, serviços criativos e entretenimento. Esse imenso leque inclui não apenas as chamadas indústrias culturais e o artesanato, mas também segmentos como design, arquitetura, moda, software e festas populares tradicionais, entre outros.

O conceito de economia criativa surgiu na Austrália, em 1994, mas se consolidou em 1997, na Inglaterra. Diante de um cenário econômico sombrio, o então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, identificou 13 setores, chamados de ‘indústrias criativas’, com potencial para dar novo fôlego à economia nacional. Em comum entre eles, a possibilidade de gerar direitos de propriedade intelectual. Em 2006 foi criado, no país, o Ministério das Indústrias Criativas, para gerir um mercado que atualmente emprega 1,3 milhão de pessoas e gera 112 bilhões de libras por ano (cerca de 416 bilhões de reais).

No Brasil, o debate sobre economia criativa foi deflagrado pelo Fórum Internacional de Indústrias Criativas, realizado em Salvador, em 2005. Um importante desdobramento foi a inclusão de um módulo voltado para o setor dentro do Fórum Cultural Mundial do Rio de Janeiro, em 2006.

SUSTENTABILIDADE CRIATIVA
Apesar do pioneirismo e dos expressivos números britânicos, Lala acredita que o Brasil tem condições de produzir um diferencial. “O que temos trabalhado é a economia criativa voltada para o desenvolvimento sustentável. O Brasil é capaz de inovar em linguagens, em modelos de gestão. A experiência do Reino Unido gerou desenvolvimento econômico, mas não sustentabilidade, não agregou”, analisa. De acordo com ela, países como Chile, Argentina e Austrália também já desenvolvem iniciativas interessantes.

Lala cita como exemplo concreto dessa potencialidade o São Paulo Fashion Week, referencial no universo da moda. “Não há um similar com esse tamanho e essa diversidade. É um modelo inovador, pois parte do pressuposto que a indústria da moda não existe sozinha”, aponta. Outra iniciativa nacional destacada por ela é a Apoena, combinação de ONG e conceituada grife que reúne 600 bordadeiras, moradoras de comunidades de baixa renda do Distrito Federal. O projeto mantém um instituto, no qual as mulheres têm a oportunidade de estudar arte e aprender novas técnicas. “É uma interface entre negócios e economia solidária”, sintetiza Lala.

Na opinião da consultora, a economia criativa - sobretudo em países do hemisfério Sul - deve ser feita a partir de modelos de gestão e de negócios baseados em diversidade. “Trata-se de uma estratégia de desenvolvimento. A questão da criatividade será o grande diferencial para os negócios no século 21. Viveremos uma era de culturalização dos negócios”, projeta.

COMUNICADOR TRANSDISCIPLINAR
Lala enfatiza a importância da criatividade quando o assunto é a situação das empresas brasileiras diante do panorama descortinado pela economia criativa. “Estamos num estágio muito atrasado. Um exemplo é a indústria têxtil do Brasil. A solução não é competir com a China, por exemplo. Ela estará no design inovador, no comércio justo, na diversidade cultural. E nossas empresas ainda não investem nesse potencial”, constata.

Esse desconhecimento pode ser explicado pela dificuldade de mensurar aspectos da cultura muitas vezes intangíveis. Segundo Lala, o Sistema de Informações e Indicadores Culturais, iniciativa do Ministério da Cultura, é louvável, mas os números ainda são restritos. “Esse é um trabalho complexo. Não se pensa a economia da dança, por exemplo, com tudo o que envolve essa atividade, todas as interfaces. É um problema mundial mensurá-las. A economia vai ter que mudar seus valores para medir ativos intangíveis”, prevê.

Uma das possibilidades de expansão da economia criativa - tornando-a mais palatável e atrativa para nossas empresas - é o estudo do segmento pelo meio acadêmico. Pesquisas já são desenvolvidas em universidades federais de estados como Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, além de instituições de São Paulo, como o Senac e a Universidade São Luís.

Lala percebe ainda a necessidade de adaptação dos profissionais de comunicação ao cenário multifacetado desse setor emergente. “Os profissionais deverão ter uma formação transdisciplinar. Para isso, terão que se reinventar. Os fundamentos da economia criativa são distribuição, visibilidade e articulação. Por isso, a participação do profissional de comunicação é decisiva, pois ele é capaz de colocar diferentes mundos em contato. O comunicador tem o perfil adequado para realizar essa ação.”

Alfredo Boneff
Fonte: Nós da Comunicação

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Palestras do Seminário de Economia Criativa no Senac 11de junho

Para aqueles que estiveram presentes, e para os que não puderam comparecer ao nosso fabuloso evento, abaixo estão reunidas todas as apresentações do Seminário Economia Criativa: Futuro e Oportunidades realizado no Senac no dia 11 de junho de 2008.
Agradeço aos convidados que disponibilizaram esse material.

Lala Deheinzelin - curadora

Economia Criativa e Futuro por Lala Deheinzelin


Oportunidades na Tradição por Helena Sampaio

Estrategias de Cultura e Desenvolvimento por Ana Tomé

Open Business por Oona Castro


Comunicação Digital e Redes Colaborativas por Sergio Xavier

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Palestra com Lala no 6º Seminário de Gestão Empresarial

"PARQUE TECNOLOGICO DA CIDADE SÂO PAULO" - proposta de moobilização de ciência, tecnologia e habitat de inovação para a cidade

Proposta:
Saúde, Educação, Trabalho e renda, Habitação, Meio ambiente, Cultura, Orçamento, Acompanhamento do Legislativo, Transparência e democracia participativa para o Bairro Butantã , Zona Oeste, na Subprefeitura de Butantã e também para a cidade toda.
O projeto do Parque tecnológico da cidade de São Paulo privilegia a reunião de oito setores que mais representam a atividade empresarial e científica da região metropolitana de São Paulo, . São segmentos fundamentais que colaboram com a modernização da estrutura industrial brasileira e para a geração de soluçôes para os problemas metropolitanos. São eles:
- Tecnologia De Informação,- Biotecnologia e Saúde,- Bens de Capital,- Novos Materiais
- Eletroeletrônica- Energia,- Química Fina e Petroquímica.- Indústrias criativas
A ambição do parque é preencher a lacuna que existe para o fortalecimento das cadeias produtivas desses setores, atendendo às demandas de cada um deles, e identificar a oferta atual de ciência e tecnologia disponível para que o desenvolvimento sustentável se retroalimente. Várias demandas dizem respeito à necessidade de infra-estrutura específica para o desenvolvimento de negócios no ambiente do parque tecnológico, bem como a reunião de agentes de capacitação, certificação e atores financeiros que garantam a velocidade necessária para tomadas de decisões estratégicas. Um primeiro estudo foi realizado pela Secretaria de Desenvolvimtno Economico do Estado de São Paulo em parceria com o Cietec - Centro Incubador de Empresas Tecnológicas e apontosu os seguintes pontos que devem ser levados em conta e são prioritários na proposta de implantação do Parque Tecnologico da cidade de São Paulo:
1) Geral
-Aprovar, regulamentar e implantar a Lei da Inovação Paulista;
-Oficializar, regulamentar e apoiar a Rede Paulista de Incubadoras, tendo como base a RAITEC;
-Apoiar a ampliação do escopo da Rede Metrológica do Estado de São Paulo, principalmente no que se refere à certificação de conformidade nacional e internacional;
-Criar um programa de extensionismo tecnológico, em parceria com o SIBRATEC do governo federal;
-Prover o Parque de serviços que agilizem a criação de empresas de base tecnológica e o registro de seus produtos/serviços;
-Induzir o uso do poder de compras do Estado, para estimular a inovação tecnológica nas empresas paulistas, de maneira a ampliar a inserção dessas empresas nos mercados interno e externo;
-Integrar cientistas, governo e a classe empresarial, visando estabelecer uma dinâmica de transferência de tecnologia e conhecimento entre os atores;
-Criar cursos de nível médio (técnico) e de nível superior (engenharia e tecnologia) nas áreas selecionadas;
-Criar um núcleo de RH (emprego e estágio) voltado à inovação tecnológica.

2) Para Micro e Pequenas Empresas
-Criar linha de apoio à inovação, á certificação, à capacitação tecnológica e à utilização de serviços técnicos especializados;
-Fomentar a criação de espaços físicos de 100 m2 a 500 m2 dentro do Parque, que as MPEs possam alugar por um período de até 10 anos;
-Estimular a criação e a ampliação da indústria de capital empreendedor (venture capital);

3) Para Centros de P&D&I
-Backbone de dados interligando principais datacenters de SP, se tornando uma infra-estrutura viável para trabalho com apoio de Vídeo Conferência, alta disponibilidade dos serviços oferecidos, alto nível de desempenho em taxas de transferência e estímulo a aplicação de inovações tecnológicas;
-Fomentar a criação de laboratórios de P&D&I em parceria com as ICTs e empresas públicas e privadas, voltados para as tecnologias portadoras de futuro, tais como nanotecnologia, biotecnologia, energias limpas e renováveis, etc.;
-Incentivar as atividades de P&D&I por meio da cooperação entre ICTs e empresas, voltadas para o desenvolvimento de produtos/serviços em convergência digital
-Centro para prototipagem e design;
-Prédio central (ambiente centralizador) contendo correios, escritórios com os principais courriers, (facilitando a importação de material biológico), escritório da ANVISA, restaurantes e pequenos auditórios;
-Empresas especializadas em estudos de toxicologia.
Além disso, a necessidade mobilização dos setores publico e privado é essencial.

http://www.nossasaopaulo.org.br/forum/index.php?op=proposta&proposta=591&url=L2ZvcnVtL2luZGV4LnBocD9vcD1wcm9wb3N0YV9saXN0YQ==

As Indústrias Criativas e o Brasil

Julio Daio Borges é editor do DigestivoCultural.com

Para quem ouviu falar da era da informação, o conceito de indústrias criativas não é completamente novo. Qualquer cidadão do mundo hoje observa que, desde o século XX, caminhamos para uma economia menos concentrada no tradicional modelo industrial e mais ligada à geração de idéias. Para usar uma imagem bastante próxima, uma economia menos de hardware e mais de software. Uma economia criativa, se tomarmos a expressão original em inglês para o que, em português, chamamos de “indústrias criativas”.

O objetivo aqui é mostrar a quantas andam as indústrias criativas no Brasil. Temos um “parque industrial criativo” competitivo em nosso País? O que está sendo feito para que essa nova economia se desenvolva? O governo brasileiro é parceiro das indústrias criativas? Quais as vantagens e desvantagens para a “economia criativa” no País? Estas e outras questões serão abordadas, em maior ou menor grau, embora se esteja muito no início dessa corrida e o Brasil, por mais que a história da industrialização no País diga o contrário, tem grandes chances de se destacar.

Quando Bill Gates se desligou da IBM e partiu para a fundação da Microsoft, na década de 70, provavelmente não tinha total consciência do movimento que promovia, em termos de paradigma, mas estava coroando, com seu exemplo, uma nova era da economia contemporânea. Se seu antigo empregador, a International Business Machines (IBM), carregava sua finalidade até no nome (uma empresa produtora de “máquinas para negócios”), a Microsoft, sua nova empreitada, indicava igualmente sua finalidade no nome – mas era uma empresa não de hardware (maquinário), como a IBM, e sim de software (programas e soluções lógicas). Gates, menos por bravata do que por realização própria, nos anos posteriores, havia decretado não só o fim da supremacia da IBM, no mercado de computadores, mas havia inaugurado – junto com outras empresas e outros empreendedores, é bem verdade – um tempo em que o capital humano era pela primeira vez mais valioso do que os bens de produção, desde o século XVIII, com a revolução industrial.

O estilo de aquisições da Microsoft, que se revelou nas últimas décadas um dos maiores gigantes do capitalismo em toda a sua história, consolida essa máxima: a empresa expande suas atividades não apenas num mundo de ativos fixos, mas também na direção do que se convencionou chamar de “realidade virtual”. Bill Gates quando encampa, por exemplo, a operação de um Hotmail (no fim dos anos 1990, por 400 milhões de dólares), não está adquirindo apenas o modelo de negócio e o conjunto de ações da conhecida empresa de e-mails gratuitos, mas sim reforçando suas fileiras de recursos humanos, e de idéias (além de uma inquestionável posição de mercado, é claro). Gates “capitaliza” a Microsoft, a cada aquisição, com um time cheio de novas soluções e de acertos criativos em termos de software (seja dentro ou seja fora da internet). Sua encarniçada disputa pelo mercado de navegadores, contra a Netscape no fim da década de 90, sua derrota na justiça em 2000 (que desacoplou o Internet Explorer do sistema operacional Windows), entre outros momentos de sua trajetória, ratificam esses princípios.

Para fechar com exemplos da “nova economia”, surge o Google, até uma aquisição possível (mas não concretizada) da Microsoft. O buscador hoje bilionário de Larry Page e Sergey Brin rompe ainda mais radicalmente com o modelo industrial do passado: o Google agrega em seu sistema uma “informação” que já existe – a própria internet – e devolve-a reempacotada para um mercado que, por meio do consumo de anúncios indexados, sustenta as atividades da empresa (o mercado de internautas atrás de orientação). O Google não vende “fisicamente” nada (como a Microsoft, seus pacotes e seu suporte). O Google, para não dizer que não tem ativos fixos, conta com a eficiência de seu algoritmo de busca, a genial idéia de seus criadores de Stanford, e, além de aprimorá-lo ad infinitum (desdobrando suas atividades em agregadores de notícias, comparadores de preços, etc.), conta com um poderoso sistema de processamento (via servidores no dito mundo real), e é só. O Google, no limite, junta pessoas, ponto.

São dois exemplos reveladores do momento atual. Na era das “indústrias criativas”, o movimento é cada vez mais nessa direção. Em vez de concentração de ativos, uma rede espalhada e – por que não? – descentralizada de “produtores”. Em vez de uma hierarquia rígida e de uma linha de produção montada, um esquema de trabalho mais no sentido “colaborativo” e uma cadeia que não se encerra no produto final mas, sim, se realimenta indefinidamente (vide o sistema operacional Linux, de código aberto ou open source, que recebe intervenções dos próprios usuários – exemplo, aliás, seguido de perto pelo Windows, ainda que tardiamente, em sua “abertura” para as universidades). Em vez de criações proprietárias, onde tradicionalmente se cobra, digamos, por “direitos autorais” (copyright), uma realização onde as trocas são o ponto culminante do processo ou onde, ainda, o produto final são as próprias “conversações” (no sentido do Cluetrain Manifesto) – os diálogos entre os produtores, através do intercâmbio de informações (por mídias várias), e não uma obra acabada ou sequer uma conclusão “final” (vide, na esfera da comunicação, o fenômeno dos blogs – onde emissor e receptor se confundem e o “produto” são, justamente, as discussões geradas).

A indústria cultural, ou as indústrias culturais (no sentido menos pejorativo), sente(m) os efeitos da mudança como poucas. No mercado fonográfico, para usar o exemplo mais eloqüente e vertiginoso, assiste-se à substituição progressiva de um modo de produção industrial ou em série (LPs, CDs ou DVDs) por um consumo de música em rede, onde uma vez irradiado o material original (sobre o qual os direitos supostamente incidem) perde-se o controle de sua distribuição, pois o movimento não acontece, como antes, de maneira centralizada e gradual, mas, sim, ocorre de pessoa a pessoa, de usuário a usuário, ultrapassando inclusive fronteiras físicas, nacionais ou internacionais. A informação – no caso, a faixa, a peça ou a canção – vira imediatamente commodity, já que cai para sempre e irreversivelmente em domínio público, não apenas em função dos programas de troca de arquivos (uma “música”, no reino digital, não é mais que – como um texto, uma imagem – uma coleção de bits & bytes) – que apenas aceleram ou catalisam o processo –, mas por conta da rede física, que visivelmente existe e que veio para ficar, ainda que amparada por outras redes como a telefônica e a de TV a cabo: a internet, a rede mundial de computadores.

O Brasil, por incrível que pareça, e ainda que timidamente, participa, em menor grau, claro, disso tudo. Afinal, a essa constatação se alia o fato básico de que o País tem uma das “internets” mais representativas no cenário global, tanto em termos quantitativos quando qualitativos. Basta lembrar, para usar um exemplo bem prosaico de comunicação em rede (mesmo que em estágio primal): a rede de relacionamentos impulsionada pelo mesmo Google, o Orkut. Desde seu lançamento, no ano passado, que os brasileiros atingiram posição de destaque, quando não invadiram de todo os nós da comunidade do onipresente sistema de busca. Evidente que não é exemplo estrito de indústria criativa, pois essa rede específica não tem fins econômicos (não algo que se afirme em definitivo), mas ressalta uma faceta tipicamente brasileira (gregária) no processo, que, não por acaso, alimentou a criação de outras redes similares em que, ao contrário do Orkut, se explora amplamente suas potencialidades comerciais (vide Fulano.com, MeuGrupo.com.br e Link).

Entrando agora no âmbito mais restrito da cultura, como produção cultural, o Brasil está mais que capacitado para competir globalmente – independente da internet (ou da rede) daqui, pelo simples fato de que a nossa cultura sempre teve uma posição de relevância. Mesmo que a discussão entre no limite do gosto, as dimensões continentais do País, a mistura da influência entre América, Europa e África, a posição hegemônica na América do Sul e, mais além, na América Latina já serviram, por si, de motivação favorável para a inclusão de nossa cultura, e das nossas “indústrias criativas”, entre as mais representativas do globo. Tomando alguns domínios, fica claro porque o Brasil tende a ocupar, mais e mais, um lugar de destaque.

Na música, nossa relevância é indiscutível, apesar da barreira da língua. Afinal, é sabido: entre a música popular marcante do século XX, está a dos Estados Unidos, a de Cuba e a do Brasil. Com a crise das grandes gravadoras (explicitada anteriormente), o mercado da música, principalmente o alternativo, começa a se lançar em iniciativas de nicho e a fazer uso da rede de modo favorável a si – para angariar público, para promover shows e para, portanto, prover o sustento da produção numa era “pós-direito autoral”.

No cinema, vivemos o boom das realizações digitais e igualmente dos festivais nacionais, todos alavancados pela retomada, via leis de incentivo, a partir de 1994. A rede ainda não é suporte fundamental para o cinema, mas vai ser já (vide o Google Video). E saindo da esfera das pequenas iniciativas, a indústria angaria menções importantes, mais notadamente as do Oscar e as de Cannes (todos devem se lembrar dos feitos, nessa área, de Walter Salles Jr. e de Fernando Meirelles – aliás, cooptado por Hollywood).

Na literatura, nosso maior fenômeno, nada lisonjeiro (em termos de valor), é Paulo Coelho. O autor que, na sua noite de autógrafos na Inglaterra, consegue atrair mais público do que David Beckham (no dia anterior); o autor que, para não ser maciçamente pirateado no extremo Oriente, tem tiragens astronômicas e lançamentos mundiais lá com exclusividade; o autor que, no Brasil, a cada livro, consegue, simultaneamente, ser capa de todos os semanários e de todos os cadernos culturais. Tirando Paulo Coelho, assistimos ao boom de pequenas editoras e de autores novos (quase todos na internet – sendo, portanto, lidos em Portugal e no mundo hispano-americano); sem contar os medalhões, de gosto duvidoso, geralmente best-sellers da Companhia das Letras (Jô Soares, Chico Buarque, Drauzio Varella), traduzidos em algumas dezenas de idiomas, adaptados para cinema e convidados para eventos literários aqui e no exterior.

Nas artes plásticas, mais uma vez graças à internet, a arte digital brasileira está atravessando fronteiras, ganhando destaque em exposições virtuais e sendo convidada para Bienais como a de Florença. Foi o caso, por exemplo, da artista da Web Daniela Castilho, que de repente acordou com um e-mail e com uma carta (em papel) para uma exposição física na Europa (detalhe: ela nunca havia exposto fora da internet; muito menos no Brasil). Em termos globais, e de mainstream, temos a Bienal de São Paulo que, desde sempre, tem relevância mundial – apesar de ser alvo de ataques, a cada edição, e de querelas envolvendo o gosto.

Apesar de todas as críticas que atualmente se faz ao Ministério e ao Ministro da Cultura, Gilberto Gil, ele se revela hoje um dos mais antenados, com essas novas realidades, dentro do Governo. Gil é a favor do software livre (open source); Gil engrossa o coro do computador popular (arrastado mas que um dia sai); e Gil, sempre que pode, abraça para si a discussão de direitos autorais, na nova era pós-internet, puxando temas da mais extrema vanguarda como o Creative Commons.

Para concluir, podemos dizer que o Brasil tem indústrias criativas competitivas, sim, e que, apesar do histórico pouco estímulo que se dá ao empreendedorismo e, mais amplamente, à cultura no País, estamos vivendo uma época cheia de indicações promissoras (muitas, é claro, ou a maioria, não vão se realizar). Vale lembrar, também, novamente, o impulso das leis de incentivo, a partir de 1994, com a Rouanet, que fez renascer o cinema e que multiplicou, nas metrópoles, os tais centros culturais. A internet é um fator decisivo nessa nova fase de globalização das indústrias criativas e o Brasil, mesmo com as suas inúmeras vítimas da “exclusão digital”, ocupa uma posição de destaque na World Wide Web – o que nos permitirá assistir, ainda, a muitas vitórias das nossas indústrias criativas.

http://www.digestivocultural.com/upload/juliodaioborges/FGV_200508.doc

Conjunto de Atividades que Compreende a Indústria Criativa

(Márcio Ferreira Pereira)

Para o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte do Governo Britânico (2006),
indústria criativa é aquela indústria que tem origem na criatividade, habilidade e talento individual e que tem um potencial de crescimento econômico e de criação de empregos através da exploração da propriedade intelectual.
A expressão indústria criativa é relativamente nova (JAGUARIBE, 2004). Este
termo surgiu na Inglaterra como objeto de política pública no final dos anos 90, no
contexto das novas ações implantadas em decorrência da ascensão do “New Labour” de
Tony Blair (COSTA, 2005). O termo, inserido no contexto do processo industrial, tem como elementos fundamentais a criatividade e a possibilidade de exploração via direitos intelectuais.
De acordo com Ana Jaguaribe (2004), “as indústrias criativas representam um
conjunto de atividades econômicas emergente, que ultrapassa os limites tradicionais
entre a produção e o consumo. As atividades econômicas que compõem o núcleo das
indústrias criativas não são, por si mesmas, novas. O desenho arquitetônico, a moda, a publicidade, a produção áudio-visual e a música são todas atividades associadas à
primeira revolução industrial que adquiriram, no entanto, uma dimensão econômica e
social totalmente nova com a globalização e o surgimento da sociedade da informação”.
Assim, as indústrias criativas envolvem o intercâmbio de serviços e produtos, sendo que elas adquirem valor econômico por meio de sua distribuição.
O conjunto de atividades que compreendem as indústrias criativas abrange
um número bastante amplo, incluindo: a publicidade, o desenho arquitetônico, o
vídeo, a cinematografia, a fotografia, a música, os jogos de computador, a
publicação eletrônica, a rádio, a televisão e a moda. Apesar de não estarem interrelacionadas no sentido tradicional de um setor industrial unificado, “estas
atividades econômicas têm em comum o fato de todas estarem centradas na
produção de textos, imagens e símbolos” (JAGUARIBE, 2004).
Alguns dos problemas que este conceito apresenta é que, primeiro, as estatísticas
econômicas e relativas ao desenvolvimento para as indústrias criativas são muito
escassas, além disso, os métodos de classificação das indústrias criativas não são
homogêneos o suficiente para permitir análises comparativas. Por essa razão é que a
UNESCO (2006), bem como Mignaqui, Szajnberg e Ciccolella, adverte que o termo
indústria criativa variará de acordo com o contexto em que é utilizado, ou seja,
dependerá, muitas vezes, do país em questão e da respectiva estratégia de política
pública em jogo.
Importante notar que a distribuição de produtos criativos, em particular os
setores de áudio-visual e mídia, apresenta grave desequilíbrio quando comparamos
países desenvolvidos e em desenvolvimento. Há uma forte concentração desse mercado
nos países desenvolvidos, provocando assim o aludido desnível. Entretanto, enfatiza
Ana Jaguaribe (2004) que, “apesar das dificuldades associadas à distribuição, o mercado global de indústrias criativas é caracterizado pelas oportunidades que oferece. As
indústrias criativas não constituem apenas uma forma especial de produção, mas
também representam um sistema particular de consumo. Seu potencial de crescimento
deriva do aumento da demanda gerada pela atividade econômica e da demanda social
prevalecente”.
Oportuno notar que as estatísticas relativas às indústrias criativas nem sempre
estão disponíveis. Isto se vê com muita freqüência nos países em desenvolvimento,
onde as indústrias criativas continuam a fazer parte da economia informal. Apesar disso, fica evidente, quando se tem acesso a alguns dados, que o desempenho dessas indústrias
na América Latina e na Ásia não tem sido insignificante. Em países como o Brasil, o
México, a Colômbia e a Argentina, as indústrias criativas hoje representam cerca de 3% do PIB (OAS Culture Series and Andres Bello Cultural Agreements 2003).
A evolução tecnológica afeta as indústrias criativas de variadas formas. “Como
produtores de textos, imagens e informações, as indústrias criativas se beneficiam das inovações tecnológicas relacionadas à circulação de informações, especialmente por meios digitais, porém é importante destacar que, embora as inovações tecnológicas
possam ressaltar ou facilitar a criatividade, elas são incapazes de impulsioná-las. Assim, projetos baseados em computadores têm alterado a prática do desenho arquitetônico, sem, no entanto, aumentar a oferta de talento arquitetônico” (JAGUARIBE, 2004).
Como apontado no verbete de indústria cultural, no âmbito da música gravada, o
avanço tecnológico tem promovido enormes benefícios. Neste campo, porém, também é
possível observar um estímulo de oferta de talento, uma vez que as etapas da produção
musical se tornaram mais acessíveis por conta desse avanço tecnológico. Assim, é queum músico, que antes dependia de uma grande gravadora para vencer as etapas de um
processo de produção de uma obra musical, agora tem ferramentas tecnológicas mais
acessíveis para, autonomamente, controlar este mesmo processo, provocando esta nova
realidade um aumento de oferta de talento.
Entretanto, assiste razão à Ana Jaguaribe (2004) quando afirma que “a
digitalização possui significados diferentes de acordo com a indústria específica.
Avaliar seu impacto continua sendo uma tarefa complexa, visto que a tecnologia está
distribuída de forma desigual e que a maioria dos países ainda não implantou a infraestruturanecessária para difundir o novo paradigma em larga escala”.

http://www.cult.ufba.br/maisdefinicoes/INDUSTRIACRIATIVA.pdf